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— E como foi lá nos Estados Unidos?
— Ah, foi muito legal vô. Nova York é incrível.
— Ah, é? E tava gostoso lá?
— Tava sim. Frio pra caramba. Teve uma nevasca...

Esse foi meu penúltimo diálogo sozinho com o meu avô. Ele estava em uma cama de hospital. Quando entrei no quarto, senti como ele estava debilitado. Nunca o havia visto tão magro, tão frágil, mas também pude sentir como ele estava feliz em me ver. Respirando com dificuldade, ele me abraçou e beijou, como sempre fazia. Seus braços não tinham mais a força que eu me lembrava, mas ainda assim, ele fez o que podia, sorriu com dificuldade, e conversamos um pouco. Não foi a última vez que vi ele com vida, entretanto prefiro essa lembrança. Pouco depois desse dia, em nosso último momento juntos, mentimos um para o outro. Ele afirmou que estava bem, e eu retruquei dizendo que logo ele estaria melhor. Era ingenuidade da nossa parte, mas o que mais poderíamos fazer? Pelo menos tive a chance de dizer que o amava, e isso foi sincero.

Saturnino Justino do Amaral morreu aproximadamente às 10h20 do dia 26 de agosto. Em vida, ele foi muitas coisas. Com o tempo, vamos percebendo que nunca conheceremos as pessoas por completo. Ele foi pai, marido, amigo. Ele foi um contador de histórias. Ele foi o “Nen da banda”. Para mim, ele era apenas meu avô e machuca perceber que ele se foi. Nosso mundo é tão efêmero, as coisas mudam com tanta frequência, que o inevitável não faz sentido. O “nunca” e o “para sempre” são termos muito abstratos, que não entram em nossa realidade. São palavras que assustam por sua perenidade. Meu avô se foi para sempre e eu nunca mais poderei abraça-lo novamente.

Recentemente, li um texto da jornalista Eliane Brum em homenagem a um fotógrafo que havia morrido. Nele, ela afirma que “aqueles que amamos morrem devagar dentro da gente”. É uma forma poética de dizer que a ficha ainda não caiu. Acho que não caiu para ninguém. Lembro de receber a notícia de que ele havia falecido e sentir um soco no estomago. Fiquei sem reação. Minha mãe me falava sobre como minha irmã iria passar para me pegar em Taubaté, da onde iríamos para casa, e em seguida para Minas, onde meu avô morava, e eu só pensava em como aquilo não podia ser verdade. Mas fomos, em direção ao local onde o corpo estaria sendo velado.

Ao entrar na pequena igreja, observei cada uma das pessoas que estavam ali. Familiares e amigos lamentavam a morte daquela pessoa, que fora mais forte que todos nós, em diversos momentos. O Nen sofreu uma vida inteira com dores na perna e com uma vida difícil. Alimentar seus filhos foi uma de suas principais preocupações, durante grande parte de sua vida. Mesmo assim, nunca o ouvi reclamar. Sempre com um sorriso no rosto, e uma disposição enorme, ele me contou muitas histórias. Hoje, lamento não ter tido a chance de poder ouvir mais sobre ele. Ele podia falar sobre meu pai quando criança, sobre meus tios, sobre os causos de terror que só uma cidade pequena tem, mas raramente falava sobre si mesmo se não fosse questionado. Não acho que o conheci de verdade. E acho que tínhamos muito em comum. Ele talvez até tivesse um quê de jornalista, se tivesse tido a chance de estudar. Mesmo doente, tinha uma memória incrível. Conseguia lembrar a idade e o aniversário de todos os filhos e netos.

O caixão era de madeira bem simples, nada de mogno. Alguns entalhes circundavam a madeira, enfeitando com um charme discreto. Apoiado em dois suportes de metal, um pouco arranhados devido ao polimento excessivo, o caixão ficava no centro da parte superior da pequena igreja. A única decoração no local eram duas coroas de flores e duas velas que ladeavam o corpo. A primeira pessoa que prestei atenção era minha avó. Ela chorava silenciosamente, os olhos quase fechados, com uma feição de abandono. Ao entrar no espaço com as minhas irmãs, que começaram a chorar de imediato, senti um nó na minha garganta, enquanto observava o homem que um dia havia me carregado em seus braços. A primeira impressão que tive foi em como ele parecia em paz. Em pouco menos de dois meses de um câncer devastador que destruiu 90% de um de seus pulmões, meu avô havia sofrido muito. Nos dias em que pude visita-lo, ele sempre estava com um olhar de desespero. Não é difícil imaginar o que passava em sua cabeça – além das dores constantes e incessantes, havia a vergonha em ter que depender de todos, quando sempre havia sido tão independente. A sensação de ser um incômodo e talvez o medo da morte. Até no sono, seu rosto demonstrava essas emoções. Mas ali, deitado em meio a flores, com a camiseta feita especialmente em sua homenagem, ele poderia estar dormindo. Rejuvenescido, quase sem rugas, como se os dois últimos meses nunca tivessem acontecido.

O resto do dia se arrastou com um entra e sai de pessoas ora chorosas e tristes, ora curiosas e solidárias. Para os mais íntimos, esse dia ainda não terminou. A dor de se perder alguém amado não se supera, apenas se torna tolerável. O velório em si mostra isso. Seja passando uma noite inteira em claro, ou cochilando por três horinhas, como eu fiz, a saudade está ali. Lembro de acordar de dentro do carro, o pescoço latejando do desconforto, o sol queimando por trás das minhas pálpebras. Foi apenas um segundo, até eu sentir meu estômago despencar e o sentimento de perda voltar com toda a força. Olhei para o lado, para a igreja. O enterro seria em poucas horas, então me forcei a sair do carro. Precisava encarar o fim. Não haveria domingo seguinte para me despedir, não haveria retorno ao hospital para dizer oi.

Enquanto aguardávamos o carro da funerária para levar o corpo para a igreja, cada um despedia-se do corpo. O nó em minha garganta se intensificou ao ouvir minha avó chorar em voz alta. “Ele me deixou. Ele me deixou sozinha, agora estou sozinha. ” Minha tia Clarice a abraçava com força. “A senhora não está sozinha, mãe. A senhora tem a gente. ” Mas o que minha avó sentiu naquele momento? Imaginei a jovem Ana Isabel, conhecendo um homem que apenas ela conheceu, alguém que nem eu, nem seus filhos conheceram. A intimidade de um casal é algo sagrado, que só aumenta com o tempo. Ana perdeu um companheiro de anos, e agora ela estaria sozinha. E ninguém poderia substituir esse vazio.

Na igreja, o caixão foi colocado próximo ao altar. Todos os familiares rodearam o caixão, em um último momento de despedida. Meu nó na garganta arrebentou naquele momento, e eu chorei ao lembrar de cada momento, de cada dia que eu tive a chance de estar com ele. Eu podia não ser seu neto favorito, podia não ser o mais presente, mas ele era meu avô, e ele tinha orgulho de mim. E Deus, como eu tenho orgulho dele. Ele morreu, e eu lamento cada dia que não pude estar ali, lembrando-o disso. O tempo nunca será o suficiente, nunca é. Perto de mim, estavam minhas três irmãs. Minha sobrinha uma hora estava nos braços da mãe, outra nos braços dos avós. Quieta, sem entender o que se passava, ou porque as pessoas estavam chorando. Ela me fazia pensar sobre como a morte e o nascimento eram parte das nossas vidas. Você nasce, cresce e morre. Meu avô havia morrido, e minha sobrinha tinha uma vida inteira pela frente. Aquilo me reconfortava de alguma forma, e sabia que aos outros também.

Por fim, o caixão foi fechado, e nos preparamos para carregá-lo até o cemitério. O dia, que havia amanhecido ensolarado, agora estava cinzento, e uma garoa fina caía nas ruas de Sapucaí-Mirim. O caixão passava de mãos em mãos, familiares e amigos revezavam-se, seis de cada vez, para segurar uma das alças. Eu segurava a mão da minha mãe, e ambos observávamos meu pai, enquanto seguíamos na rua. A cena me lembrava outro dia, outro enterro. Outro momento em que eu, com apenas 15 ou 16 anos, carreguei o corpo de uma tia que havia falecido. Foram apenas alguns passos, dados com dificuldade devido ao peso. Eu era apenas uma criança na época.

E então você entende a transição da criança em um adulto. Não me ofereci para levar o caixão, até sentir que era o momento certo. Finalmente, algum pressentimento me fez avançar até a pessoa mais próxima, cutucar seu ombro e fazê-lo passar a alça para mim. Segurando, andando a passos largos enquanto a chuva começava a cessar, eu olho para o lado e vejo que meu pai substituiu o homem que estava do meu lado direito, na ponta inferior. Ele me olha de relance, e eu percebo como ele envelheceu em poucas horas. As rugas e os fios de cabelo branco não estavam ali no dia anterior. Mas ele não chora. Na verdade, não o vi chorar em nenhum momento, desde que o encontrei após o ocorrido. Seus lábios tremem um pouco, e ele desvia o olhar. Fico em dúvida se ele sabe que sou eu que estou ali, enquanto atravessamos lado a lado as portas do cemitério. Uma corrente elétrica atravessa meu corpo quando percebo o simbolismo daquele momento. Filho, pai e avô. Três gerações, entrando juntas no cemitério a passos largos. O mais velho se foi, o filho se torna adulto, e o pai, que agora é avô, sofre com o peso da morte.

Quando o caixão chega próximo à cova, eu dou alguns passos para trás, e observo meu pai com atenção. Não existe cerimônia, não existem palavras bonitas. O túmulo nada mais é que um buraco cavado na terra, molhado com a chuva. O caixão é colocado sem rodeios na vala. Quatro homens, um deles o meu pai, descem o corpo e logo pegam as pás e as enxadas. Os torrões de terra são lançados em movimentos ritmados, batendo na tampa de madeira. Mesmo assim, meu pai não chora. Eu apenas olho para ele, que tem gotas de suor misturadas a chuva brotando em sua testa. Naquele momento, me imaginei enterrando meu pai, o homem que admirei uma vida toda. Penso se também não conseguirei chorar.

O resto do dia passou com velocidade. Lembro que voltamos para a casa do meu avô, que já não é mais a mesma. Todos começam a contar lembranças, tentando achar formas de esquecer a dor. Alguns voltam para suas casas. Nós fazemos o mesmo. Meu pai deixa as chaves em minhas mãos, e eu guio o carro de volta para casa, pensando. Meu pai está diferente, e mesmo sem derramar uma lágrima, sei que algo morreu dentro dele. Consigo sentir sua tristeza, que emana em ondas, afetando a todos dentro do carro. Já dentro da cidade, com a minha irmã do meu lado, olho pelo retrovisor e vejo meus pais no banco de trás. Uma parte de mim quer gritar para eles: “Não morram nunca! ”, mas sei que é inútil, então permaneço calado. Sempre tive a noção de que meu avô seria eterno. Você nunca realmente pensa na morte de um ente querido, até acontecer. Mesmo doente, mesmo sabendo que não restava muito tempo de vida, foi um choque para mim ao receber a notícia. Nunca estamos preparados.

Acho que eu tenho sorte de ter conhecido alguém tão extraordinário como o meu avô. Me revolta que a notícia de sua morte não esteja em nenhum jornal, em nenhum meio de comunicação. Ele merecia mais. Merecia uma vida melhor, sem dores, sem dificuldades. Mas, ele não seria a mesma pessoa se não fosse assim, então não me resta muito a não ser escrever. Palavras não são muito, e eu nunca conseguirei descrever a pessoa que ele foi ou contar o suficiente sobre a sua vida. Mas palavras são tudo o que eu tenho, tudo o que eu sei fazer. E como o bom contador de histórias que ele era, sei que vai apreciar.

Eu amei meu avô e tive orgulho dele. Com ele, aprendi a determinação e a gentileza. Aprendi a sempre sorrir, e sempre abraçar as pessoas com força.

O vô Nê sempre nos abraçou com força. Com amor.

E esse abraço vai fazer muita falta.

Willian Amaral

Willian Amaral

Jornalista, Designer e Desenvolvedor. Gamer nas horas vagas e ativista quase o tempo todo.